tentou abandonar a mãe no açougue + 5 poemas de Natasha Tinet

Ceci Monark não tinha freios.
não tinha orgulho
não tinha azuis.
Ceci Monark só tinha a mim. E eu montava nela com sapatos de verniz.

Oração à Nossa Senhora do foco

nossa senhora do foco
não dê minha alma como perdida
rogai por minha mente inquieta, dai-me sentido na vida.
mate meu talento, já não me importo, quero ser senso comum
ser indiferente a tudo que seja de caráter profundo
quero resolver angústias existenciais com meu cartão de crédito
assistir noticiários e achar tudo banal
nossa senhora do foco, fazei de mim um pires:
de porcelana barata, branco, raso e sem dor.

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Sou babilônica desde criancinha
o resto é lenda
arquitetura da desconstrução
nunca aceitei “porque não”
dente por dente, ofereci os meus à Hamurabi
ele não quis
dei-lhe uma dentada
ele devolveu
babilônicos nunca blefam
babilônicos arquivam tudo
em placas de argila crua
o tempo há de cozinhar
assar ao ponto
essa mágoa milenar

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tentou abandonar a mãe no açougue

agarrou a barra da blusa de outra mulher
que lhe ofereceu sorvete e paciência
cabou que era ela mesma, a própria mãe
no avesso do origami
mães bipolares são difíceis de reconhecer
em dias de sol esquecem a sombra em casa
em dias de chuva viram estátuas
mimetizam a estampa do sofá
ou tornam-se mágicas
as cadeiras ganham asas
a lona periga incendiar
é um cenário delicado
a genética não perdoa
mãe filha: opostas semelhantes
de patins na corda bamba
não tem saída esse labirinto invisível
melhor sentar as visitas no chão
colar a louça e servir um cafezinho.

Evelyn McHale não podia se casar
tinha tendências iguais as da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octagésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o suicídio mais belo da história
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.

Há espuma nos meus sonhos
Marés baixas, pés gelados
rochas lunares ouriços ocultos
Meu travesseiro de placenta
bordado com fios de cabelo azul
é recheado de sangue e sargaço
nutrientes desperdiçados
dentro de mim não há espaço
sou passado dentes e bolhas
a única a última
perdida em um deserto úmido
mastigando conchas
respirando imensidões
transbordo.

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Natasha Tinet é escritora, artista, feminista, gateira, bipolar e espondilítica. Integra o grupo EMA – Escritores Muito Anônimos e é co-editora da revista online EMA. Alagoana radicada no Paraná, mora em Curitiba desde 2014.

Fotografia: Gabriel Machado

Um comentário sobre “tentou abandonar a mãe no açougue + 5 poemas de Natasha Tinet

  1. Natasha Tinet é vinho tinto que se bebe aos gritos de Evoé! Matei uns poemas com espinhos de rosa na jugular, o sangue em estado choque colou dois versos na garganta.

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