H. SABE 4 IDIOMAS E NÃO ENTENDE O QUE EU FALO + 3 POEMAS POR BRENDA SODRÉ

DADDY ISSUES

lá pras tantas da vida
senhorita a. encontra no corpo
todos os indícios
havia ela aprendido a arquitetura do voo
o corpo do pássaro
o que se move nessa penumbra é senhorita a. sibilando sargaços
cheia de dor
rica
tem sobre as clavículas
um aeroporto
lotado de aviões de papel
você quer que senhorita a. atire
naquele homem
foi pra isso que ela fez os aviões
para atirar contra aquele homem
você quer que senhorita a. use as mãos
mas ela não tem mãos
você quer que por via da tortura
senhorita a. encare
já com a gengiva sangrando
esses aviões perfeitamente dobrados
que carregam dentro de si
lá na ossatura da dobra
os dizeres
MEU PAI NÃO ME AMA

 

 

NUNCA SEREI CASA SEREI LÂMPADA

doutor,
é claro que não digo que gostaria de morrer
mas tenho visto toalhas e vasos de plantas tentarem suicídio no parapeito da janela
o microondas tem roubado a minha comida
e toda vez que abro a geladeira
tudo sua e pinga
não vou dizer que gostaria de morrer
mas as tomadas sussurram tragédias possíveis à noite
e a água do ralo volta como uma ânsia
que inunda os meus pés descalços
enquanto o chuveiro ameaça fazer de mim
algo elétrico
não sei bem como dizer isso, doutor
mas eu não sou uma das cinco mulheres chinesas em cima de uma única moto
ultrapassando sinais vermelhos e carros só pra escrever com glitter que cometi um ato de
desobediência civil no meu diário
não direi que quero morrer
eu não seria capaz disso
embora ontem meus olhos tenham conseguido ficar abertos por apenas cinco horas
minha voz esteja falhando há dias
e quando eu a procuro
ela some de mim
você diria que estou paranóica, doutor
mas talvez uma afta tenha irrompido em meu lábio inferior
como uma pérola que arde e encratera minha cara
só para avisar
que algo irá acontecer
e será agora
nessa contramão
serei já então uma estrela
entre urano e netuno
não terei o maior brilho
serei modesta
tampouco serei a causa do brilho no olho de alguém
alguém que certamente consegue mantê-lo aberto por mais de cinco horas
e que assim como você, doutor
tem uma caixa de balas brilhantes
na mesa de centro
da sala
serei insignificante
um astronauta me verá de soslaio
e me ignorará
não serei a estrela que virão capturar para dar de presente embrulhada em papel brilhante
para a pessoa que tem uma caixa de balas na mesa de centro da sala e acena e sorri
e é linda
mas serei uma estrela
e você, doutor
continuará sendo essa bandeira fincada
que só se move se um vento ousar entortar
e certamente
continuará sendo limpíssimo
um grande homem perfeito
e uma ótima pessoa
ótima

 

colagem brenda dora

 

H. SABE 4 IDIOMAS E NÃO ENTENDE O QUE EU FALO

tudo indica que h. é um homem
e que continua visitando esse mesmo quarto vazio
repetidas vezes
onde os choques nunca cessam
e a respiração é devolvida
pelo eco
aqui nessa ausência
h. não poderá dizer
olhando nos olhos de martinha
parece que finalmente os choques estão menores
acho que estão indo embora
olhando nos olhos de oitenta anos de martinha
h. nunca poderá dizer
primeiro porque os choques estão voltando
e segundo porque h. é um homem
nesse pântano momento
martinha não terá a possibilidade
de derramar os olhos de oitenta anos
sobre o rosto de h.
questionando os choques
desmascarando os choques
dizendo que sente até uma espécie
de carinho
que só sabe de carinho
primeiro porque os choques nunca pararam
e segundo porque martinha não é um homem
todo mundo sabe que martinha
é a nova namoradinha do brasil
enfiada nessa merda de quarto vazio
à sua revelia
os indícios mostram
que martinha sempre diz sim
h. com as mãos no bolso não
compreende
ele não teria como compreender
primeiro porque h. é um homem
ele não teria como sequer compreender
martinha tendo o corpo totalmente
ocupado
jogando as mãos pra cima gritando
eu me fodi
eu estou fodida
eu sou uma mulher fodida
e gritando de novo

 

 

SELFIE

nessa noite
eu vou aleijar você
ele disse enquanto lambia os dedos
um por um
nunca serei sua pequena sereia
minhas pernas não enfeitarão sua estante westwing
sou obcecada por mim mesma
perfume dolce&gabbana para o dia
nina ricci para a noite
e 94 centavos na conta bancária
os vizinhos reclamam
não suportam minhas habilidades
de equitação
acham um absurdo as cavalgadas
na beirada do sofá
todos tão entediados brincando de casinha
eu transei com a barbie porque achei ela parecida comigo
eu botei fogo na casinha
penso em mim mesma enquanto faço sexo com você
penso nos meus olhos inflamados
no meu embrutecido colo
enquanto faço sexo com você
penso nos ossos da minha bacia saltados pra fora
oblitero o teu corpo
não quero saber
eu falo demais porque não suporto a tua voz
prefiro a minha
você se parece com meu pai
eu fiz um boneco voodoo do meu pai
eu dou de mamar pro meu bonequinho
ele se chama superman
eu canto pra ele uma canção de ninar
limpo as dobrinhas
olho com meu olho vivo
seu olho de parafina
eu não me pareço com você
eu queria ser como você
vazio
sem bicho nenhum dentro do corpo
sem ódio
eu vou coalhar esse sangue
isso aqui é um jogo
espeto a agulha no umbigo
você é de pano
frágil
não faz barulho

 

brenda

meu nome é brenda sodré. nasci dia primeiro de abril no rio de janeiro há 24 anos. metralhadora em estado de bala, máquina de guerra disparando lágrima. nasço então com a cabeça vermelha e uma hemorragia cerebral. sou bacharel em artes cênicas e escrevo. só sei falar de fogo e estalo, dentro do meu corpo: paisagens de guerra.


Texto: Brenda Sodré

Colagem: Dora Figueiredo

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