3 poemas de Amanda Vaz Texeira

1.
por muito tempo eu tive medo do ralo. era preciso tomar banho muito rápido para que a água represada não se espalhasse. de olhos bem fechados, eu escolhi não me incomodar com o mau cheiro, mas desta vez eu olhei pela janela e a turba, antes invisível, vinha cruzando as marechais (sabe, as ruas?

são as novas mulheres que marcham e queimam os sutiãs comumente rasgados ou ignorados na urgência de cair fora. mas há também os que sem pressa tiram-lhes cuidadosamente o sutiã, e depois colocam
[e depois permanecem

2.
a enxurrada o chuveiro a piscina a maré cheia a cachoeira os saltos del guairá a água deste lugar não é potável
impossível respirar

o mar volta a navegar
em mim não há ralos torneiras
onde o mar começa

a água cai abundante sobre meu rosto nos meus ombros
o peso da família é imenso o mar é imensidão
e começa sempre
pelos olhos

3.
sim, permanecem]
dentro do seu país, dentro da sua cidade, dentro do edifício em que você mora desde que nasceu, bem debaixo do nariz da sua mãe, dentro da sua família, dentro de você. a célula cancerígena é interna e a metástase é como quando a água migrou por toda a casa e eu percebi que no ralo havia apenas o que vinha de dentro, ainda que sob a forma de alguma criatura oceânica que tem a cara dos meus medos de infância. com a maioria de nós mulheres foi sem pressa e havia paredes.
(eu ainda nem usava sutiã)

foto do olhinho

Amanda Vaz Texeira(1990)Come e fala de tudo (só não puxa assunto de manhã), gosta de gente, pede desculpas, olha no olho e se acha um pouco. Aos oito, foi abduzida por gatos e não voltou em boas condições. É graduada em cunversê de mesa de bar, mestra em justificar desvios de conduta com astrologia e doutoranda em fazer ficção parecer autobiografia, e vice-versa.

Colagem: Natasha Tinet

2 comentários sobre “3 poemas de Amanda Vaz Texeira

  1. Amanda Vaz Teixeira me condenou no xadrez dos versos entrelaçados de file. Agora, como pederei me livras das palavras punhais cravadas no coração. Ubirajara Almeida

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  2. Amanda Vaz Teixeira me condenou no xadrez dos versos entrelaçados no labirinto do filé. Agora, como poderei me livrar das palavras punhais cravadas no coração. Ubirajara Almeida

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