6 poemas das editoras Julia Raiz & Natasha Tinet

Vermelho

Éramos máquinas de destruição
matávamos moscas entre as páginas das velhas revista Manchete
no miolo, passistas do carnaval de 87 sorriam, seus corpos semi nus
carimbados com os cadáveres em alto relevo.

os morcegos que habitavam a ausência da casa
eram expulsos a pedradas, caiam do teto como amêndoas
fingiam-se de mortos e no chão, quando recolhidos com a pá
e jogados contra o ar, voavam. O imperador Montezuma II
não tinha asas, bastou uma única pedra para reduzi-lo à história.

Nas guerras cinematográficas, os cavaleiros
sempre reconhecem seu inimigos em meio ao sangue
e a lama. Como vou saber, Anna?
Como vou saber quem está do nosso lado?

Tudo é mentira, exceto a cor vermelha
meu útero dói, os miomas se contraem
provocando um holocausto de cochonilhas
que colore de carmim todas as paredes do quarto
sim, eu estou chorando feito uma santa fraudulenta
por favor, Anna, ao menos me diga
se estou viva ou se estou morta.

Tinet

 

cleo, a cleptomaníaca

não queria começar um poema com:
sou cleptomaníaca
mas minha estirpe é a da mais tosca
estão a salvo os isqueiros e biscuits
prefiro o que você têm rondando de moto a cabeça
entro onde estão à noite (não estão em suas camas, posso garantir)
e levo tudo, passou meu longo braço derrubando o que encontro
pra dentro de um saco de lixo azul celeste que carrego no ombro
feito um ladrão da Turma da Mônica
pego de imãs de geladeira à certidão de nascimento dos seus primogênitos
sei dos melhores horários porque sei quais de vocês
têm espíritos fortes que plainam por outras dimensões sozinhos
e quais levam companhia
quais têm liberdade de movimento
mas com materializações pequenas de alma
e quais continuam em vigília conversando com fantasmas
quando deveriam estar bem despertos
o amor não é nada mais do que o proveito da oportunidade
sinto quando abrem ou fecham suas pesadas portas na minha cara
ou quando dizem mentiras nadando com os amigos
em piscinas redondas e querem que eu assine contratos
que pingam no chão de mármore
por isso tenho cada vez menos pena de roubar de vocês
uma árvore também roubou de mim
porque cresci de frente pra mata seus ramos vingavam fortes
se alimentando da minha energia vital
em troca não me dava coisa alguma
e quando eu subia alto em seus falhos
não fazia nada que pudesse me salvar de cair
as árvores não sentem remorsos
elas nem conversam entre si sobre isso
não têm a mesma preocupação que eu tenho
de escrever um poema que dê conta
do dia que um de vocês me lançou um pedido de socorro:
“venha, leve tudo o que eu tenho, por favor,
não aguento mais todas essas coisas”
por isso eu acho que no final das contas
faço mesmo um favor a vocês
e por isso até deveria ser paga
talvez devesse ser essa mesma a minha profissão

Raiz

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Prelúdio

Pensou que eu ia vestir luto
vou é desfilar triunfante
vestido vermelho vivo
risinho frouxo de musa escapista
indicador bamboleando meu colar
ah meu filho, rancor só de mãe
pode apostar no pesadelo
dentro do corpo oco da boneca
existem ossos de carneiro, juro que ouvi
“põe fogo nisso aí que só pode ser do mal”
todos deveriam saber que o melhor jeito
de ouvir Chopin é assistindo a um incêndio.

Tinet

 

Passou um caminhão nem viu o porsche queimando

minhas amigas não me dão presentes elas me consideram
uma pessoa que não se importa com esse tipo de coisa
em vez disso me escrevem ameaças como poemas batidos à máquina
numa casa se uma telha cai isso já é uma sentença
tomamos juntas um chá de ervas chamado
seu momento veio / seu momento passou
minhas amigas anotam coisas a meu respeito
se viajamos juntas elas me emprestam livros com a palavra devoção elas me tratam como se eu
soubesse da história de um fundo de um poço
um poço que é como o vão de um elevador
onde uma menina cai e ainda está lá esperando por resgate
eu tenho problemas de raiva preciso dizer a elas
que um serial killer é aquele boceja muito
é aquele que diz faço qualquer coisa contanto que seja divertido
minhas amigas precisam entender que os meus segredos
os meus crimes infantis nunca vão ferir os peixes
os urubus as hienas que transam entre si
ninguém sabe do fundo do poço minhas amigas são asmáticas
são espondilíacas são esquizofrênicas meu chá é forte é a minha cabeça
se eu escrevesse uma história de terror nela
não aconteceria nada escrever uma história
amarrar uma pessoa vender um bezerro enquanto
ele espuma a corda na boca outra telha cai
sentimos ainda o calor da estufa em chamas onde queimam
mechas de cabelo azul e chegam excitadas minhas amigas
para me fazer uma peruca

Raiz

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Porque sempre quis escrever um poema
que começasse com meu amor

meu amor quando chega
inclina os ombros de ruína
estala em minha boca um beijo cinza
todas as horas do dia à deriva
à espera de um abraço que nos ancore
em um único cansaço.
meu amor quando chega
me presenteia com laranjas recheadas de sol
um modo de alterar distâncias
devorar melancolias.

meu amor quando chega
a cidade é um posto de gasolina iluminado
centelhas noturnas murmuram nas ruas
são os escombros do sono
desabando sobre nossos ossos
no meio do sonho há sempre um grito
habitando os desabrigados
enquanto moramos em duas casas
uma para onde sempre voltamos
outra de onde nunca saímos.

Tinet

 

eu nunca posso tombar
você disse
você tá sempre mal
eu preciso ficar em pé
você disse
se tivermos um filho com síndrome de down
se ele quiser ser chamado de sônia
em vez de luisito
você não poderá ficar tantos meses fora de casa
você disse
me voy a tombar em navarrete
você disse
seu pai ainda vive lá
servindo torresmo e gim tônica

Raiz

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Julia Raiz é escritora, tradutora e pesquisadora dos estudos feministas da tradução. Edita os blogs literários totem & pagu, firrrma de poesia, e Pontes Outras, dedicado à tradução de literatura escrita por mulheres. Em Curitiba faz parte do coletivo de escrita membrana. Seu primeiro livro “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela ContraVento editorial. Lançou o megamini “p/ vc” pela 7Letras em 2019, @julia.raiz

Natasha Tinet é escritora e ilustradora. Nasceu em Palmeira dos índios, Alagoas, e
reside em Curitiba desde 2014. É integrante da grupa de escrita Membrana. “Veludo Violento” é seu livro de estreia e conquistou o 2º lugar no prêmio Fundação Biblioteca Nacional 2019 na categoria poesia. @natashatinet

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