Tirar o leite + 4 poemas de Lia Presgrave

Tirar o leite da pedra dos olhos
Tirar o leite do umbigo do copo
Tirar o leite do pau da árvore
Os paus do brasil
Tirar o leite da coroa-de-cristo

O leite bebe
tudo que entra branco
e sai gozoso

O branco verte leitoso
O branco jorra infectuoso
O branco se espalha nebuloso
O branco se exibe faustoso
O branco come deleitoso

O leite chora
tudo que entra branco
e sai gozoso

 

 

Venha que eu te mostrarei
dançando como é que se morre
Serei um emplastro
de um deus dançarino nietzscheano:
curativo, malfeito, imprestável, maçante
(não necessariamente nessa ordem)
Venha que eu morrerei
ondulando ali diante dos teus olhos

 

 

To-do list

Como se fosse o sol. Uns dias, aquecer; outros, queimar.

Ler ingenuamente um poema como se ele falasse algo a mim. A vã procura pelo poema primordial.

Admitir o estranhamento num poema que resiste a mim, à minha interpretação ou a qualquer outro tipo de espelho. Uma resignação que já é alguma compreensão.

Trair o silêncio, preferindo a palavra, mas nunca abandonar o silêncio.

Trair a sina de ser mesa. Blefar. A dança anfíbia.

Se cansar do desejo. São todos rubros, escarlates. Capitular docemente. Entender os deslocamentos e as distâncias. Passar, fluir, soprar.

Não ter o dom. Desertar. Repelir deuses embusteiros.

Aceitar que a ilusão serve para tornar tudo suportavelmente real.

Degredando, ficar.

 

colag

 

 

Recado

Para amar uma mulher
é preciso comê-la com a língua,
raspar o seu ventre com a concha da mão
É preciso se despir do seu pau-trono,
virar do avesso, invaginar
Invaginando talvez seja possível
se conectar a uma mulher
Morra tentando

 

 

Eu poderia ficar por muito tempo
Assistindo àquela dança
memória em carnadura.
A beleza do corpo negro
me dançou até o fim do amor.

 

 

Mulheres que descortinam a nuca
como quem prendem os cabelos
cujo véu é renda descegando os olhos
Dádivas para um retratista

Mulheres redondas vermelhas e fortes
Bocas abrindo megafônicas
Pretos aguerridos recôncavos
gargalhadas elétricas
celulites, polpas de carne hiperbólica

Mulheres lhanas
que nos deixam entrar
de cara lavada na vida
Deusas amenas das nove horas

Mulheres terrenas
terrosas de pele vermelha
couro quente que tatuam
sóis e flores nas gentes
Mulheres de agora
que olham fundo nos olhos

Mulheres que sofrem um tempo calado
e imóvel das ruminações das coisas
Se perdem descobertas e aprendizagens
Umas ardem sôfregas, outras
apenas desertam sem dor nem amor
Despedem o malogro como quem
perpassa o contratempo dos dias

De todas essas, há mulheres
que são livres de tão putas
Gatas, putas que cedo tardam
passeiam sinuosas
ronronam riscadas
Não vão acordar

 

foto

Lia Presgrave (Niterói – RJ, 1984). Niteroiense de nascença, gonçalense de pertença (São Gonçalo – RJ). Saiu do subúrbio pra viver em Aracaju e em Londres, mas o subúrbio não saiu dela. Atualmente mora em Florianópolis onde faz doutorado em Educação na linha de Filosofia da Educação. Pesquisa a autobiografia como criação de si na obra literária de Jean-Jacques Rousseau. Firma sua poesia e outros devaneios no site www.diccaoimpropria.wordpress.com.

Colagem: Jessica Stori 

 

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