O tesão como estratégia de guerra- um possível mapa para a poesia de Natasha Felix por Taís Bravo

1. A poesia de Natasha Felix¹ nos coloca em um impasse. Sua técnica de corte cria campos de silêncios. Espaço suficiente para que diferentes leituras possam entrar, se apropriar e incorporar seus versos. Sendo assim, o exercício crítico fica em um lugar incômodo ainda que conhecido de longa data: Como dizer algo sobre essa poesia se interpretá-la é justamente a aniquilação de seu potencial? Ainda insistindo em ampliar sua leitura, encontrei como um caminho a tentativa de não dizer algo sobre essa poesia, mas, sim, a partir dela. Fiz isso coletando, cortando e me apropriando de meus próprios saques. Além dos versos e textos de Natasha Felix salpicados ao longo deste ensaio, respectivamente nos itens 4, 5 e 7 estou roubando de Paul B. Preciado em Manifesto Contrassexual, de Silvia Federici em O calibã e a bruxa e de Audre Lorde em A poesia não é um luxo.Se isto é um mapa, essas foram minhas bússolas.

2. Se não tem tesão, não tem jogo. O processo de escrita de Natasha Felix é sobre tesão. Não cabem aqui sublimações: desejo, luxúria, lascívia. É sobre tesão. Tantas vezes conflituoso, angustiante, inadequado. O tesão deixa pegadas, invade, muda destinos. Sabe também ser leve como uma risada depois de um gole de cerveja. O tesão se apropria de práticas. Como aprendizagem, se espelha, incorpora o que não domina. E no caminho do que repete, deixa restos. Cria algo novo.

3. ter uma ideia/ meu deus uma ideia. Felix opera pelo corte. Mas, antes, se aproxima da linguagem com dedos ansiosos. Saquear todo tipo de texto: verso, propaganda, teoria, música, wikipédia, manuais. Esquecer as influências. Não dar privilégio algum à Literatura. Onde podem dizer “referência” ou “reverência”, pegar apenas o prazer. Vislumbrar em qualquer material uma outra forma de uso. Ter uma ideia. Tomar para si. Começar o corte. Colocar em teste. Repetir, mais uma vez.

4. atente ao corte. é o que interessa. Com(o) as tesouras de Derrida, a poesia de Felix repete compulsivamente um movimento de incorporação e reapropriação. Em seu tráfico de significantes, essa poesia coloca em funcionamento sua própria expansão polimorfa. É trânsito e não essência. A partir dessa operação de corte e de translação, testa as relações entre corpo e linguagem, sobretudo, testa as estruturas de controle que mediam essa relação: os instrumentos, as máquinas, os usos e os usuários.

5. lembrete / tudo que não é estrutura é sedimento. Em “use o alicate agora”, os poemas estão em paisagens fixas. Ao contrário de poetas contemporâneas que escrevem uma poesia centrada em um movimento urbano e incapturável, Felix não se ocupa do que se passa lá fora. O espaço íntimo, no entanto, não garante qualquer proteção. Ali, onde você deveria se sentir seguro, ela mostra o fim do mundo vivendo entre animaizinhos.

6. devem ser abertas e fechadas para que não se esqueçam / que a função das pernas é de serem abertas e fechadas. Em algum momento da história, o corpo se transforma em uma coleção de membros. Torna-se matéria bruta. É colonizado. Como se se tratasse de um inimigo, dizem que o corpo não sabe, não deseja, não sente. A estrutura, com suas máquinas, instrumentos, utensílios, transforma essa matéria orgânica em significante. E o que sobra como puro resíduo? E o que não produz? E o que não entra totalmente no discurso? Também se criam formas de uso para isso. Funções. Arquiteturas. Produtos. Duchas quentes. Sabonetes artesanais.

Movida pelo tesão, essa escrita que é um corpo usa esses instrumentos. Incorpora o que participa da estrutura mas não obedece suas práticas; não cumpre com suas funções. Não tem uma casa. Não quita suas dívidas. Não tem pernas. E sai do banheiro cada vez mais suja.

abstrato p ensaio thais bravo

7. é simples ser infeliz é importante ter bons dentes. Esse corpo-escrita não vislumbra uma saída. Se não é possível se desvencilhar totalmente da estrutura, saber jogar com ela. Não se engalfinhar. Não compactuar com suas promessas. Reconhecer quem não tem a cabeça limpa. Estar do lado de dentro, sabendo que um dia as pernas serão curtas demais, que a identidade precisará ser refeita tantas outras vezes, medindo tudo que ainda precisa ser dito. E enquanto a estrutura não para de erguer suas exigências, burlar. Mais uma vez, tomar para si. Fazer desse “enquanto” seu tempo. Não esperar as brechas. Porque não existe tempo livre. Se ocupar mais em corromper do que em ser incorruptível. Ocupar os dedos cavando mais fundo. Mastigar os resíduos. Escrever, ensaiar, roubar versos, treinar. Ter um ideia enquanto lava a louça, estende a roupa, caminha para o trabalho, escova os dentes. Incorporar esse enquanto ao tempo do poema. Voltar a esse tempo enquanto o ritmo da rotina está prestes a lhe engolir. Cavar mais fundo. Ter uma ideia enquanto deveria estar limpa. Perseguir essa ideia. Ir até ser só sedimentos. Sentir tesão. Sentir que a poesia não é um luxo. É sobre ter a sensação de poder. Não é sobre ter controle da sua vida. É sobre se entregar intimamente a essa investigação. Mesmo dividida. Mesmo que seja por apenas três minutos, o tempo do poema.

8. de repente temos tempo pra tudo/ especialmente para a guerra. O poema se faz com as mãos sujas do gozo de ontem. Com as mesmas mãos sujas que desmembram o frango. Com os dedos salpicados de alecrim. Mesmo desprotegida. Acossada. Dentro dos banheiros. Dentro das estruturas que deveriam nos proteger. Dentro de um país que extermina vidas negras. Dentro de um corpo que é tomado como espaço público. (Lembrar que o lugar mais perigoso para as mulheres são suas próprias casas). Dentro de um corpo que precisa ser vigiado, medido, controlado. Com esse mesmo corpo, o poema se faz. E a escrita é seu próprio corpo. Como quem insiste em ser furiosa. Com dentes à mostra, esse corpo que escreve, essa escrita que é um corpo, é um corpo rebelde.

Onde dizem sentido, onde insistem em pura racionalidade, onde determinam uma ordem oca, confiar no meu quadril. É sobre fazer o poema rebolar. O quadril que sabe o poema ou a linguagem que está inscrita no ritmo do quadril são práticas de uma confiança reparadora. Rangendo os sedimentos de uma estrutura que captura o corpo em uma lógica exploratória essa poesia se faz como uma estratégia de guerra. Desgovernando instrumentos, máquinas, seus usos e usuários. Insistir no tesão é a sua ética.

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¹Natasha Felix (1996) é poeta, escritora e educadora. Em 2018, publicou pela Edições Macondo seu primeiro livro “use o alicate agora”. Em 2019, o “alicate” chegou a sua quarta reimpressão e se transformou em performances realizadas em centros culturais e eventos de poesia. Seus poemas também foram traduzidos e publicados no México e na Argentina.

Foto Bianca de Sá - Papelícula (6)

Taís Bravo é escritora e uma das criadoras da iniciativa Mulheres que Escrevem. Atualmente pesquisa poesia brasileira contemporânea escrita por mulheres no mestrado em Ciência da Literatura na UFRJ. É autora de “Sobre as linhas extintas” (Editora Urutau, 2018), “Houve um ano chamado 2018” (Macondo Edições, 2019) e “Ato para desembrulhar o vício” (7 Letras, 2019).

Colagem: Natasha Tinet

Fotografia da autora: Bianca de Sá

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