SMS em viracopos + 5 poemas de Marina Rima

ex-revenge

se me pergunta
se sou vingativa
digo: -nããão
mas adoro imaginar
maneiras criativas de
me vingar de você
como pichar em frente
ao teu muro, por exemplo,
“te odeio”
e, assim, fantasio
tudo resolvido entre nós

dias normais

todo dia cuidar de criança
de casa
de cachorro
às segundas quartas sextas
tirar o lixo, levar pra fora
ouvir estórias repetidas
e armar discussão pelos detalhes
eu ouço palavras comidas,
eu falo comendo palavras
os detalhes me interessam mais
fiquei boa em ouvir e ver os vãos
talvez porque goste de esconderijos
talvez porque encontrei um jeito de fugir (e amar)

as horas gastas com você
e talvez, também, todo amor seja uma espécie de fuga
enquanto recolho o lixo, olho o bebê, distraio o cachorro das suas manias
eu escrevo poemas mentais
que eu nunca escrevi verdadeiramente
eu dito cartas para um certo alguém além do mar
que nunca vou endereçar
faço o tempo dar voltas, em volta de mim
crio uma lacuna, entro nela, fujo dela
paro no meio do redemunho

no sé como empezar

todos los días pienso en escribir un romance

pero aún no se como empezar

como quem faz um filme

todo poema é um filme
mesmo que pareça uma música
mesmo que tenha o de se nho de um qua dro cons tru ti vis ta
(mesmo que faça vista)
todo poema é um apanhado de vontade de dizer uma coisa
ou dizer aquela coisa nenhuma, exatamente essa
que o cinema fala mudamente
todo poema é um avião levantando voo
e o mato na margem, dançando de maneira absurda
surdo pelo som de turbilhão na turbina
surdo porque já não pode ouvir nada além de um som vazio na cabeça
e uma imagem vazia diante de si (o olhar fugidio para chão do corredor)
(o olhar fugidio pela pequena janela de vidro duplo)
o olhar vazio que um céu imenso lança
tudo como imagem posta diante de uma câmera que olha
tentando criar sintaxe, pensando em fazer verso
como um pero vaz, como um marco polo diante de kublai khan
como um victor hugo cortesão, como um camões de páginas molhadas
com um antigo poeta, cantando como belas as guerras barbarizantes
cantando como quem faz um filme

ex-paradise

as horas passam
sem que tenham passado
não se sente o começo,
o meio nem o fim do tempo
uma lacuna de marfim
guarda o segredo de todos os anjos
e reflete as luzes coloridas
da sinaleira da esquina
hora de ir, de esperar, de parar
mas não há quem obedeça
nem as leis da física, 
nem as leis de trânsito
você flutua sobre meus olhos
e eu recolho, com os dedos em pinça,
as penas do travesseiro espalhadas pelo chão 
a terra é hoje, para nós, um paraíso perdido

SMS em viracopos

Ignoro nossas diferenças
e digo que somos iguais
você diz que não
mas não vejo nenhum traço de distinção entre nós

entre nós e nossas caras
entre nós e nossos lábios
entre os nós da nossa carne
da nossa mania monodialogica
se eu morrer agora você morre comigo
e se eu morrer agora a poesia morre também
e me pergunto se alguém escreverá epitáfios

Marina Rima é poeta e pesquisadora. Aqui, publica, poemas inéditos e “como quem faz um filme”, do livro “peças avulsas num jogo de tabuleiro” (Urutau, 2020).

Gif e colagem: Helen Kaliski

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